A origem do termo “Samba” e o surgimento do samba moderno

14 Março de 2013

*Por Euclides Amaral

Possivelmente o termo "Samba" é uma corruptela do termo "di semba", que significa umbigada, palavra de origem banto africana, provavelmente do Congo ou de Angola (com seus muitos dialetos como o kikongo, humbundo e kimbundo), de onde veio a maior parte dos escravos para o Brasil. Na língua Kimbundo, no singular é "disemba" e no plural é "massemba". Na verdade a palavra "semba" é originária de um tipo de dança de umbigada, a “Dança Semba", comum em Angola, Zaire, Cunene, Cambinda, República Centro-Africana, Congo-Belga e Congo, Moçambique e as Rodésias.

Euclides Amaral e seu livro 'Alguns Aspectos da MPB' / Foto: Elias Nogueira

Uma das grafias mais antigas do termo "Samba" foi publicada por Frei Miguel do Sacramento Lopes Gama, em fevereiro de 1838, na revista pernambucana "Carapuceiro". No artigo o termo “samba” não se referia ao gênero musical propriamente, mas a um tipo de folguedo popular de negros da época.

Em 1880, o viajante português Alfredo Sarmento, perambulando pelas florestas do Congo, Angola e no norte de Ambriz, além do Rio Zaire, registrou alguns tipos de batuques coreografados pela umbigada, dança na qual os participantes batiam com a barriga uns nos outros.

Outros registros do termo, quase sempre como dança ou reunião, também estão presentes em A Folha Nova, jornal da Corte, 1884, no seguinte texto recolhido pelo filólogo português Macedo Soares.

“Não acreditamos que a dignidade do país fosse ultrajada porque nas fronteiras do Brasil com as Guianas Francesas, um mascate em hora de samba, ou de libações, ousou arriar do respectivo mastro o pavilhão nacional”.

Em 1890 o romancista maranhense Aluísio de Azevedo citou o termo em seu clássico “O Cortiço”.

Segundo o médico e pesquisador Hiram Araújo, na Bahia, ao longo dos séculos, as festas de danças dos negros escravos eram chamadas de "Samba".

Com o passar dos anos, a dança "Samba", sempre conduzida por diversos tipos de batuques africanos, assumiu características próprias em cada lugar, não só pela diversidade das tribos (e nações) de escravos, como pela peculiaridade das regiões nas quais foram assentados.

Entre os tipos de danças populares mais conhecidos, destaco Samba Lenço, Samba Rural, Tiririca, Miudinho, Jongo e Samba de Bumbo (em Pirapora, também em São Paulo); Tambor de Crioula ou Ponga (Maranhão); Samba Corrido, Samba de Roda, Bate Baú, Samba de Chave e Samba de Barravento (Bahia), Bambelô (Rio Grande do Norte), Coco (Ceará), Samba de Parelha (Sergipe), Trocada, Coco de Parelha, Samba de Coco e Coco Travado (Pernambuco), além do Coco de Roda do litoral pernambucano, com marcação de tamancos de madeira utilizados pelos dançarinos e que tem sua origem no encontro das culturas indígena e negra. Três são os instrumentos do Coco de roda: pandeiro, bombo e ganzá. Há ainda, no Rio de Janeiro, Partido Alto, Miudinho, Jongo, Caxambu, Samba Duro ou Batucada, também conhecida por Pernada, tipo de dança anterior à capoeira.

Quanto ao vocábulo "Samba", existem várias versões de seu nascedouro. Uma delas diz ser originário do árabe, mais precisamente mouro, quando da invasão desse povo à Península Ibérica no século VIII, sendo o termo original "Zambra" ou "Zamba".

Há quem diga que é originário de um dos muitos dialetos africanos, possivelmente do Iorubá (Jeje Nagô) "sam" = dar, "gbá" = receber, ou ainda "Ba" = coisa que cai.

Outra vertente de pesquisadores defende a tese de que o vocábulo “Samba” é originário de Angola, portanto, da nação banto, e que significa para a nação Quiocos daquele país um verbo, mais especificamente o verbo “brincar” e/ou “divertir-se”.

O termo “samba” também significava “festa”, e assim permaneceu durante muito tempo, tanto que Noel Rosa, compositor que pertenceu à segunda geração do samba, junto ao pessoal do Estácio, usou o termo em um de seus maiores sucessos que traz o seguinte verso “Com que roupa eu vou ao samba que você me convidou?” (1930). Na letra o termo é usado como sinônimo de “festa” e não como designação de um gênero musical, como já era corrente naquela época. No Rio de Janeiro em pleno no século XX, o termo ainda era usado como designação de “festa”. Sabemos que em outros estados, principalmente no Nordeste, a palavra "samba" também é reconhecida com essa função, tais como os improvisos de maracatu na Zona da Mata e nas ruas de Pernambuco, os quais são chamados de "samba".

Outro termo, também corrente, na região da zona rural de Pernambuco, é "Sambada", constituindo-se em uma noite de cavalo marinho, que é uma das variantes do folguedo de Bumba meu Boi e ainda o maracatu rural ou de baque solto, no qual a “sambada” é conduzida pela poesia improvisada do mestre do grupo.

O pessoal do Estácio e o samba moderno

Em 1927 surgiu a primeira escola de samba, a Deixa Falar, no bairro do Estácio de Sá, vizinho ao afamado quarteirão boêmio carioca da Lapa. Há controvérsias com relação à data de fundação da Escola. Há quem defenda que a fundação ocorreu em 1917, quando da fundação do Rancho Carnavalesco Deixa Falar (em pleno auge da atuação do Rancho Carnavalesco Ameno Resedá, o mais famoso de todos, fundado em 17 de fevereiro de 1907).

Portanto, inicialmente a Deixa Falar era um Rancho Carnavalesco, posteriormente Bloco Carnavalesco e, por fim, Escola de Samba, tendo como fundadores alguns compositores do bairro do Estácio de Sá, entre eles Ismael Silva (1905-1978), Alcebíades Barcelos (Bíde 1902-1975), seu irmão Mano Rubem (Rubem Barcelos 1904-1927) e Armando Marçal, de uma turma também integrada por Buci Moreira (1909-1982), Mano Elói (Elói Antero Dias 1888-1971), Nilton Bastos (1899-1931), Mano Aurélio (Aurélio Gomes), Baiaco (Osvaldo Caetano Vasques 1913-1935), Brancura (Sílvio Fernandes 1908-1935) e Mano Edgar (Edgar Marcelino dos Passos 1900-1931), sogro de João Gradim (João de Oliveira), também da turma e autor do samba “Quem eu deixar não quero mais”, parceria de ambos.

Esses compositores fizeram com que o samba fosse devidamente ritmado de forma que pudesse ser acompanhado no desfile, distanciando assim do samba com andamento amaxixado de outros compositores como Sinhô e Donga. Também era conhecido, por essa época, um tipo de samba denominado como “Batida de caboclo”, isso porque não tinha marcação, sendo quase impossível dançar e andar ao mesmo tempo.

A principal colaboração do “Pessoal do Estácio” foi a criação do surdo de marcação, para que se pudesse cadenciar o samba de acordo com os foliões que andavam junto à Escola de Samba, que, na época, desfilava com aproximadamente 100 integrantes.

Ismael Silva, em entrevista a Sérgio Cabral, se referia à batida do samba com dois tempos curtos e dois tempos longos: “bum bum paticumbum prugurundum”.

Oficialmente como Escola de Samba, a Deixa Falar desfilou apenas em 1929, 1930 e 1931, quando encerrou suas atividades como Rancho Carnavalesco de segunda categoria, devidamente pobre e sem expressão maior perante a comunidade.

Com o crescimento das escolas e o aumento dos foliões, assim como o andamento mais corrido dos sambas enredos, foi criado também o surdo de resposta, também conhecido como “marcação de segunda”.

Mais tarde, apareceu o “surdo de terceira” (creditado à Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel), talvez por causa do andamento tão rápido dos sambas enredos, mais parecidos com marchas, tal fato se deveu ao aumento de foliões (cinco ou seis mil) e ainda ao tempo delimitado para a escola atravessar a passarela.

*Euclides Amaral é poeta, letrista e pesquisador do Instituto Cultural Cravo Albin. Possui nove livros publicados, entre eles Alguns aspectos da MPB, pela Esteio Editora

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